Boer vivia de prestar concursos públicos. Genial, como sempre, em quase todos. Raramente era convocado, como quase todos. Nunca trabalhou por mais de um ano no mesmo lugar. Na ocasião, era Office boy de uma farmácia do quarteirão. Bruno nunca soube como Boer poderia pagar por um apartamento na zona sul, ainda que pequeno. Mas a realidade e o absurdo se misturam, e essa constante sagrada nunca lhe ofereceu problemas. “lógica é um exercício de hipótese”, a isso nunca escapara. Desta forma, nunca se ocupou em resolver qualquer mistério corriqueiro relacionado ao tecido de sua realidade. O Jaguar absurdo do vendedor de discos usados num quiosque velho, as pessoas que não pareciam existir, tudo era tratado como a mais severa das coerências. O mundo era uma selva de realidade. Se houvesse alguém que pudesse dizer o que quer que fosse sobre a realidade das coisas, certamente não o pequeno paladino Bruno ou Boer, que na véspera de seus concursos, comia duas sardinhas fritas daquele bar como um ritual sagrado. Algo sobre estimular a inteligência era a sua justificativa. Bruno não fazia oposição, mas então não se tratava do voto de inocência com relação à aceitação dos componentes da realidade, mas apenas do efeito positivo que acreditava fazerem as superstições ou rituais excêntricos sobre as pessoas, como fontes inesgotáveis de placebos, convicções anabolizantes. Por muitos anos, Bruno obedeceria a sua própria tábua de rituais invenciosos, convencido do poder milagroso da automentira. Talvez até o dia em que passasse a desconfiar de sua própria convicção como a maior das invenções.