domingo, 3 de abril de 2011

VIDA E EXEMPLO DO BUDA

É um quente e límpido dia de verão, e os roliços galhos das árvores shala estão resplandecentes com suas flores e pesados com seus frutos. A paisagem é selvagem e rochosa com muitas cavernas, e a cidade mais próxima está a mais de mil milhas de distância. Em algumas cavernas, há iogues com cabelos longos e embaraçados, trajando tão somente uma fina e branca veste de algodão. Alguns sentam-se sobre pele de veado e meditam. Outros realizam vários tipos de práticas iogues, como meditar enquanto sentados no meio de uma fogueira, que é uma conhecida prática ascética. Alguns ainda recitam mantras ou cânticos de devoção. O lugar tem uma atmosfera de paz, solidão e quietude, mas também é uma visão impressionante. Talvez tenha permanecido sem mudanças desde antes da criação do mundo. Há um grande rio nos arredores, mas nenhum pescador. O rio é tão vasto que deve ter ao menos sete milhas de largura. Em sua margem, ascetas praticam o sagrado ritual da purificação. Vê-se eles meditando e banhando-se no rio. Era esse o cenário há dois mil anos atrás num certo lugar chamado Nairanjana, na província de Bihar, na índia.

Certo príncipe, chamado Siddharta, aproxima-se. Sua aparência é aristocrática; ele apenas recentemente removeu sua coroa, seus brincos e ornamentos, logo se sente verdadeiramente nu. Ele acaba de libertar seu cavalo e seu último servente, e traja uma limpa, alva veste de algodão. Ele olha ao seu redor e tenta imitar os outros ascetas. Ele quer seguir seu exemplo, então aproxima-se de um deles e pede instruções na prática da meditação. Primeiro, explica que é um príncipe, que descobriu ser a vida no palácio desprovida de sentido. Ele percebeu que há o nascimento, a morte, a doença e a velhice. Ele viu também um sábio caminhando pela estrada e isso o inspirou. Esse é o exemplo e o meio de vida que ele deseja seguir. Tudo é novo para ele, e inicialmente ele não pode aceitar que tudo está realmente acontecendo. Ele não consegue se esquecer dos luxos e prazeres sensuais que tinha no palácio e que ainda revolvem em sua mente. Esse era o príncipe Siddharta, o futuro Buda.

Ele então recebeu instrução, talvez desgostosamente, de seu presente Guru. Foi-lhe ensinada a prática ascética de um Rishi, a posição de pernas cruzadas, o emprego das sete posturas e prática de exercícios iogues de respiração. No começo, tudo lhe era tão novo que a aparência era a de um jogo. Ele também gozava do sentimento de realização em ter conseguido ao menos abandonar suas posses mundanas para seguir esse maravilhoso meio de vida. A lembrança de sua mulher, filhos e pais ainda estava viva em sua mente, o que deve ter perturbado suas práticas de Yoga, mas então parecia não haver meios de controlar sua mente. E os iogues jamais disseram-lhe nada, exceto a seguir a prática ascética.

Essa foi a experiência do Buda, há aproximadamente dois mil e quinhentos anos atrás. E encontrar-se-ia mesmo agora uma paisagem muito semelhante e ter-se-ia experiências semelhantes, se se decidisse sair de casa e renunciar a banhos quentes e esquecer a comida de casa e o luxo de dirigir carros, ou mesmo de locomover-se em transporte público, que é ainda um grande luxo. Alguns de nós poderiam ir de avião e levariam apenas algumas horas para chegar lá: antes de saber onde tu estás, estás no meio da Índia. Alguns, mais aventureiros, talvez, quem sabe, decidam ir de carona. De qualquer modo, ainda pareceria surreal, a jornada seria continuamente excitante e não haveria um só momento tedioso. Finalmente, chegaríamos à Índia. Talvez de alguma maneira, ela nos desaponte. Você verá certo amontoado de modernidade, e o esnobismo dos indianos de alta classe, bem educados, que ainda imitam o Raj Britânico. Poderíamos nos irritar a princípio, mas então aceitaríamos a situação e tentaríamos deixar a cidade o mais rápido possível e rumar para as selvas. (Nesse caso, poderia ser um monastério tibetano ou um ashram Indiano.) Seguiríamos o mesmo exemplo e teríamos talvez mais ou menos a mesma experiência do príncipe Siddharta. A primeira coisa que povoaria nossas mentes seria o aspecto ascético, ou melhor, a ausência de luxo. Talvez aprendêssemos algo do meio de vida. Mas talvez, por nunca termos visto lugar assim, poderíamos continuar inclinados à excitação. Tentaríamos interpretar tudo, e uma conversa interna correria pela mente enquanto nos debatêssemos em quebrar as barreiras de comunicação e linguagem. Ainda estaríamos vivendo em nosso próprio mundo. Assim como foi para o Buda, também para nós a excitação e a novidade de estar em um país estrangeiro não nos abandonariam por vários meses. Escreveríamos cartas como se estivéssemos possuídos pela região, intoxicados com a excitação e a estranheza de tudo. Então, se retornássemos após apenas alguns dias ou semanas, não teríamos aprendido muito, teríamos meramente visto um país diferente, um meio de vida diferente. E o mesmo teria acontecido ao Buda, tivesse ele deixado a selva de Nairanjana e retornado para seu reino em Rajgir.

O Buda, particularmente, praticou meditação por um longo tempo sob a supervisão de professores Hindus, e descobriu que o ascetismo e a mera conformação a um arranjo religioso não ajudava. Ele ainda não tinha a resposta. Bem, talvez ela tenha obtido algumas respostas. De certa maneira, essas questões já haviam sido respondidas em sua mente, mas ele ainda via as coisas como queria vê-las, ao invés de vê-las como elas de fato são. Então, para seguir o caminho espiritual, deve-se primeiro superar a excitação inicial, essa é uma das bases essenciais. Pois a não ser que consiga-se superar essa excitação, não será possível o aprendizado, porque todo tipo de excitação emocional tem um efeito de cegueira. Falhamos em ver a vida como ela é porque tendemos demasiadamente a erigir uma versão própria dela. Por isso, não devemos jamais comprometermo-nos ou conformarmo-nos com qualquer estrutura política ou religiosa sem destarte descobrir a real essência daquilo que se procura. Colocar selos sobre si, adotar um meio de vida ascético, mudar as vestimentas. Nada disso traz qualquer transformação real.

domingo, 14 de novembro de 2010

a justificativa mais imediata para este problema é a de que, de fato, as melhores novelas de Kerouac (e refiro-me àquelas que correspondem à parte final de sua obra, como Maggie Cassidy e Visions of Gerard) ou jamais foram publicadas no Brasil, ou o foram apenas recentemente, de modo que a principal imagem que se tem da obra do autor é a proporcionada por suas obras de maior expressão propagandística, que não necessariamente correspondem ao seu tour de force. O germinadouro desta semente de despeito em relação a seriedade e relevância verdadeira da obra de Kerouac é bem descrito por Ken Kesey em sua experiência pessoal: ''On the Road was equally stace-changing. We all tried to imitate it. Yet, even then, no one considered it the work of a Truly Great Writer. I recall my initial interpretation of the phenomenon, that, yeah, it was a pretty groovy book, but not because this guy Ker-oh-wak was such hot potatoes. that what it was actually was one of those little serendipitous accidents of fate, that's all''.

outra justificativa, que se atrela à primeira, refere-se a uma questão psico-filosófica sobre a qual não me alongarei muito, por não ser aqui meu objetivo traçar panoramas morais complexos. Mas o fato é que a literatura de Kerouac possui como característica predominante, como em toda grande literatura, a provocação, especialmente escancarada em sua obra mais famosa, On The Road. Não uma provocação irônica ou histriônica, mas apaixonada. É o representar de grandes disposições, de grandes inquietações, que sucumbem à pusilanimidade para quase todos nós. A iconoclastia característica do conteúdo do livro produz no leitor médio o mesmo efeito acachapante de um Dostoiévski, de um Machado de Assis. Ao ver-se vítima da zombaria e do constrangimento consequentes da refinada argúcia moral da grande literatura, o mediano sente-se constrangido, humilhado. Não se deduz daí que eu proponha o modismo ''beatnik''. Reproduzir a experiência narrada por Kerouac é absolutamente impossível (o que não é verdade em relação ao verdadeiramente importante, o sentido espiritual maior de sua obra), o que de forma alguma torna menos ridícula e reprovável a atitude blasé do leitor medíocre em relação ao espírito do seu drama, que se expressa principalmente em pseudo-adultismos como aquele que declara o ''fascínio'' pela vida e obra dos beats mera ''paixão adolescente'', refreada e contestada com a maturidade, que supostamente permitiria a visão do lado verdadeiro das coisas (como se o mero envelhecer contribuísse para algo), ou, como ouvi dizer em primeira mão há alguns anos, uma pessoa após a leitura de Kerouac ter ficado ''cansada da libertinagem de Sal e Dean correndo por aí sem propósito''. Tal pobreza de espírito não se contentaria com o próprio relato da segunda vinda do Cristo, dada a sua esterilidade orgulhosa. É preciso lembrar que On the Road, com todos os defeitos de que possa ser acusado, é o relato de uma vida espetacular. Feito por um ser humano espetacular, que viveu uma vida espetacular, cuja mera sombra faz tremer a mediocridade burguesa de nossa existência. Suas novelas de significado espiritual mais profundo ainda transportam este exemplo para mais além.

um desses grandes problemas é justamente a qualidade léxica do português no que se refere àquele aspecto quase puramente estético (ou ornativo) da palavra, mas que justamente por sua influência decisiva no caráter da evocação imaginativa, não é tão somente estético, mas comunicativo). Veja quão mal soa na voz lusófona de Kerouac estar ''entre festas e bebedeiras''. Ao contrário do tom pontualíssimo do termo inglês ''booze'', que inclusive apazigua a atmosfera naturalmente ''chocante'' e ''agitadora'' da significação do termo, o termo em português é temperado no máximo e no mais das vezes por um tom de galhofa, inseriedade, quiçá anacronismo. Ouso dizer que este tom eminentemente presepeiro só se verifica acoplado ao lirismo de Kerouac em sua versão lusófona. Bueno gaba-se de ter eliminado a ''boléia'' e outros termos risíveis ao ouvido brasileiro das versões nacionais do autor americano, ela subsiste esparramando-se tacitamente por nossos quadrados tímpanos a cada vez em que a ''gostosa gata loira Marylou'' é citada nestes termos, que obviamente, não foram concebidos para o constrangimento que nos impõem. Não pretendo aqui condecorar o português com o estigma de língua desastrada ou inflexível, mas de fato sua robustez gramatical e vocabular é declaradamente antagônica aos compassos benzedrínicos dos romances de Duluoz. Uma tradução que se preze não pode submeter-se ao vexame de jogar segundo os termos saxões, atirando-se em meras transposições vocabulares. Não há nem poderá haver uma prosódia bop à boa maneira lusitana, é preciso que se entenda claramente isso caso se tenha em vista o objetivo de criar uma canal em nossos ouvidos para a expressão de Kerouac. Este é um problema sólido, que, à parte de todas as dificuldades óbvias e regulamentares presentes em qualquer tradução, raramente é observado numa transposição literária, pois não se trata de uma questão técnica, métrica, léxica, gramatical, sintática, mas de uma do espírito da língua, cuja exploração até a máxima tensão no inglês é um dos méritos do escritor, mas que pesa sobre nossa expressão de juristas e oradores de forma exagerada. Declaro portanto como requisitos fundamentais para uma boa versão brasileira da bibliografia ''beat'' os seguintes cuidados:
(1) - o respeito ao ritmo próprio do português, dominado o impulso de se criar uma versão ''exportação'' da Spontaneous Prose;
(2) - a adequação ao ouvido próprio do português, sem que as ''slangs'' inglesas só correspondam às suas versões traduzidas na leviandade juvenil. A qualidade estética da tradução é mais importante do que qualquer tentativa desastrada de contextualização socio-cultural com as agruras vocabulares da época do romance;
(3) - a imunidade aos modismos que possam comprometer a qualidade da obra.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

I think of New York as a great corridor. A walking line like the vast openness of the eighth avenue, a straight line to the beggining and a backing shadow of the long lasting end. I think of it as a collection of those oranged red bricks piled upon each other with old firestairs attached to them, building up buildings of different sizes, some of them damaged or just mellowed up on their run across the avenues to the south, to the great mellowness of the lower east side and chinatown. All these lines and bricks, corridors and avenues, open spaces and infinite, suffocating walls, where you can imagine the action of a dreary night, built upon the quietness of midnight chelsea, with the small symphatetic houses, the darkness of the streets or that lady standing in the front of her housedoor smoking, in the middle of the anguished dark of twentieth avenue. I think about asking the lady for a lighter, saying some useless stuff, synchronizing with that gloomy street feeling and finding some companion in the New York City where I don't know a person (but I do know I identify with many). But I can't fulfill my thought dreams this way. Almost everything I could strive for is long gone. In the end, it's just all these strange-looking negroes, hungry begging percussionists and the poor folks from the Bronx crowding the subway on their returning home from the dreary sides of the 42nd avenue. The Times Square wasn't built for them. Wasn't built for me either, but I can stand there in my good-looking clothes and imagine the past and the future. Being blinded by the lights, feeling like an ordinary tourist that can't believe in the scenery that is shown. This is where the City really stands. Flamboyant as it is, you can still see the beat, the bummy and the restless, hungry from heart, mind and stomach wandering in these neighbourhoods. These are the middle-aged black men standing in the sidwalk looking across the glass walls of the ESPN center to the basketball on the tvs, for they can never pay to get in. You can find the same men in my hometown; black middle-aged long-striving men, driving buses, going to heaven for sure. I eat $5 chinese food in the backstages of time square, trying to feel the 'hip' I came from across the sea looking for. I gather all the neon lights and dark alleys inside my mind and mix them into the real glimpse of the hipster life I am able to get in the troubled times that brought me into being. It is not usual for me to look upon the past, weeping for dead inspiration from some dead heroes. But I do learn from them. And I do catch the legacy which is written in the air, out of the focus of the neon lights hanging in Times Square (and out of the focus of a cheap chinese restaurant hanging upon the dark reachings of broadway.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Fragmento do 24 de maio.

(...) Entro no ônibus quase lotado. Ando lentamente afundo o corredor e visualizo os últimos lugares. Poderia escolher a última fileira, mas me sento no lado oposto ao banco atrás da porta, ao lado de uma gorda mulher negra. Todas as vãs almas terminam de preencher o corredor e bombardeiam para longe a tranqüilidade. Uma garotinha passa pela roleta, de cabelos encaracolados e marrons – não vulgar castanho, mas poucas têm esse cabelo marrom como barro, tingido de argila. A garotinha adolescente tem cara de criança – Não criança sublime, menininha branquinha e olhos profundos, mas criança, mesmo. Moleca em vias de menstruar. Penso na distância em oferecer meu lugar valioso num ônibus lotado e dela ganhar carinho e admiração, mas logo se senta no chão em minha frente. Avança pelo corredor outro moleque adolescente. Senta-se ali com a garotinha de cabelos cor de barro. Vejo um livro e me contorço para saber o que é. Carl Sagan, ateu maldito – enquanto todos prestarem atenção aos ateus mestres da irrealidade, estamos perdidos – penso tardiamente na Virgem Maria, em uma reação infantil. Leio Ginsberg, também ateu comunista – preciso perdoá-lo por tudo – mas não trata-se aqui de perdão, mas de endossar tudo o que se diz, ‘’esquecer minhas cuecas e estar livre’’, mergulhando livre na dialética maldita de mim. Uma meio-gorda meio-feia chega à parte traseira. Pondero cumprir alguma necessária penitência vinda de qualquer cantão de culpa e oferecê-la meu lugar. Não, todos achariam estranho. Despropositado, desnecessário. Ela senta-se onde deve, nos degraus de saída. Ouço a alta conversa que ecoa da extrema traseira, Recém-formados ou formandos de qualquer coisa, em trajes de trabalho, discutindo agruras estúpidas da vida burguesa juvenil. Falam muito alto, querem que todos ouçam. Trabalhos, notas, trabalho, casa, férias, casamento. Desejo-lhes a ida ao inferno. Os dois adolescentes no chão, o leitor de escritor ateu e a menina de cabelo da cor de tinta guache marrom conversam besteiras adolescentes. Funcionários da empresa de ônibus no corredor conversam sobre algo que não consigo compreender. Todas as conversas do ônibus misturam-se em uma áspera cacofonia.

Os homens de roupa de trabalho discutem pilhérias. Falam alto, querem que todos participem da conversa. Falam sobre filmes ruins, coisas ruins. Penso em me levantar ali, cumprir meu destino concreto e recitar em voz alta os últimos versos do Uivo. Idiotas! Acordem, ‘’A guerra eterna está aqui’’, mas continuam a ir impassíveis congestionar a feia Niterói central. Sinto pena verdadeira dos homens em roupas de trabalho. Penso em pequenezas literárias. Arquiteto modos de tornar meus personagens mais inteligentes do que eu, deslocando seus pensamentos no tempo. Unificando meus pensamentos da rodoviária ao mocanguê. Colocando tudo que deveria ter pensado em seu lugar no passado. Transformando-me numa mente preciosa de papel. Sinto distante a estupidez burguesa. Penso no sonho de dois dias atrás, em que era importunado por idiotas como na infância. Sinto-me constrangido, volto a ser um moleque bundão. Reitero como devo ser, ‘’Forte e armado, Bruno’’. Preciso malhar e comprar um canivete que seja. As pessoas esvaziam o ônibus e preenchem o feiíssimo centro de Niterói. O moleque ateu e a menina de cabelo enrolado sentam-se lado a lado. Que a Virgem os abençoe. Deparo-me tristemente com a chegada ao tórrido, insosso Ingá. Estou pingando, após uma longa viagem, em lágrimas, mas só em sonhos enxergo a bela Noite Ocidental. (...)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Boer.

Boer vivia de prestar concursos públicos. Genial, como sempre, em quase todos. Raramente era convocado, como quase todos. Nunca trabalhou por mais de um ano no mesmo lugar. Na ocasião, era Office boy de uma farmácia do quarteirão. Bruno nunca soube como Boer poderia pagar por um apartamento na zona sul, ainda que pequeno. Mas a realidade e o absurdo se misturam, e essa constante sagrada nunca lhe ofereceu problemas. “lógica é um exercício de hipótese”, a isso nunca escapara. Desta forma, nunca se ocupou em resolver qualquer mistério corriqueiro relacionado ao tecido de sua realidade. O Jaguar absurdo do vendedor de discos usados num quiosque velho, as pessoas que não pareciam existir, tudo era tratado como a mais severa das coerências. O mundo era uma selva de realidade. Se houvesse alguém que pudesse dizer o que quer que fosse sobre a realidade das coisas, certamente não o pequeno paladino Bruno ou Boer, que na véspera de seus concursos, comia duas sardinhas fritas daquele bar como um ritual sagrado. Algo sobre estimular a inteligência era a sua justificativa. Bruno não fazia oposição, mas então não se tratava do voto de inocência com relação à aceitação dos componentes da realidade, mas apenas do efeito positivo que acreditava fazerem as superstições ou rituais excêntricos sobre as pessoas, como fontes inesgotáveis de placebos, convicções anabolizantes. Por muitos anos, Bruno obedeceria a sua própria tábua de rituais invenciosos, convencido do poder milagroso da automentira. Talvez até o dia em que passasse a desconfiar de sua própria convicção como a maior das invenções.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O trompete criminoso de Van Vliet.

Arranhões.

Arranhões e o ar louco.

As big bangs da América e o Tango do Sul.

Os sons estridentes das guitarras de palhaços.

O brado retumbante dos tons marciais.

Arranhões.

Arranhões e o ar louco.

Cadáver me dê um tiro de cabeça de porco.

Para que eu não morra sem ouvir.

O trompete criminoso de Van Vliet.

domingo, 23 de novembro de 2008

Mãe.

minha mãe era uma instituição, e nisso eu me criei. Éramos só nós. Minha mãe era um pesadelo de normalidade. Nela só cabia aquilo que era trivial, mas a trivialidade dela. Seu jeito de cozinhar, cuidar das unhas e do cabelo, conversar com os vizinhos e assistir novelas era tão normal quanto ela podia querer que fosse. uma normalidade que ela havia forjado para si. E aquilo sempre se encaixou bem no nosso mundo. Ou no meu mundo, se ela tiver criado um para mim. sempre foi uma constante inquestionável na minha vida que sua comida era melhor temperada, que os cabelos e roupas que ela criticava com certeza faziam parte de um modo esquerdo de vida e de gostos e que as vidas fora dela também era esquerdas e tortas. Minha mãe não fumava, a partir disso nunca consegui enxergar um adulto fumante como alguém coerente. Uma pessoa independente, que cuida de si mesma, mas que fuma, não pode ser íntegra. Havia ali uma corrupção, como há corrupção em tudo fora da normalidade da minha mãe. Não me passava pela cabeça que eu pudesse crescer e cometer os mesmos ''erros'' da adolescência. Nem que um adulto pudesse ter uma vida bagunçada ou praticar excentricidades. É claro que anos depois, tudo isso serviu para despertar um sabor novo em mim, o sabor de viver a corrupção, de ser um adulto moleque, mesmo que isso fosse só um bicho papão da minha infância.