domingo, 14 de novembro de 2010

a justificativa mais imediata para este problema é a de que, de fato, as melhores novelas de Kerouac (e refiro-me àquelas que correspondem à parte final de sua obra, como Maggie Cassidy e Visions of Gerard) ou jamais foram publicadas no Brasil, ou o foram apenas recentemente, de modo que a principal imagem que se tem da obra do autor é a proporcionada por suas obras de maior expressão propagandística, que não necessariamente correspondem ao seu tour de force. O germinadouro desta semente de despeito em relação a seriedade e relevância verdadeira da obra de Kerouac é bem descrito por Ken Kesey em sua experiência pessoal: ''On the Road was equally stace-changing. We all tried to imitate it. Yet, even then, no one considered it the work of a Truly Great Writer. I recall my initial interpretation of the phenomenon, that, yeah, it was a pretty groovy book, but not because this guy Ker-oh-wak was such hot potatoes. that what it was actually was one of those little serendipitous accidents of fate, that's all''.

outra justificativa, que se atrela à primeira, refere-se a uma questão psico-filosófica sobre a qual não me alongarei muito, por não ser aqui meu objetivo traçar panoramas morais complexos. Mas o fato é que a literatura de Kerouac possui como característica predominante, como em toda grande literatura, a provocação, especialmente escancarada em sua obra mais famosa, On The Road. Não uma provocação irônica ou histriônica, mas apaixonada. É o representar de grandes disposições, de grandes inquietações, que sucumbem à pusilanimidade para quase todos nós. A iconoclastia característica do conteúdo do livro produz no leitor médio o mesmo efeito acachapante de um Dostoiévski, de um Machado de Assis. Ao ver-se vítima da zombaria e do constrangimento consequentes da refinada argúcia moral da grande literatura, o mediano sente-se constrangido, humilhado. Não se deduz daí que eu proponha o modismo ''beatnik''. Reproduzir a experiência narrada por Kerouac é absolutamente impossível (o que não é verdade em relação ao verdadeiramente importante, o sentido espiritual maior de sua obra), o que de forma alguma torna menos ridícula e reprovável a atitude blasé do leitor medíocre em relação ao espírito do seu drama, que se expressa principalmente em pseudo-adultismos como aquele que declara o ''fascínio'' pela vida e obra dos beats mera ''paixão adolescente'', refreada e contestada com a maturidade, que supostamente permitiria a visão do lado verdadeiro das coisas (como se o mero envelhecer contribuísse para algo), ou, como ouvi dizer em primeira mão há alguns anos, uma pessoa após a leitura de Kerouac ter ficado ''cansada da libertinagem de Sal e Dean correndo por aí sem propósito''. Tal pobreza de espírito não se contentaria com o próprio relato da segunda vinda do Cristo, dada a sua esterilidade orgulhosa. É preciso lembrar que On the Road, com todos os defeitos de que possa ser acusado, é o relato de uma vida espetacular. Feito por um ser humano espetacular, que viveu uma vida espetacular, cuja mera sombra faz tremer a mediocridade burguesa de nossa existência. Suas novelas de significado espiritual mais profundo ainda transportam este exemplo para mais além.

um desses grandes problemas é justamente a qualidade léxica do português no que se refere àquele aspecto quase puramente estético (ou ornativo) da palavra, mas que justamente por sua influência decisiva no caráter da evocação imaginativa, não é tão somente estético, mas comunicativo). Veja quão mal soa na voz lusófona de Kerouac estar ''entre festas e bebedeiras''. Ao contrário do tom pontualíssimo do termo inglês ''booze'', que inclusive apazigua a atmosfera naturalmente ''chocante'' e ''agitadora'' da significação do termo, o termo em português é temperado no máximo e no mais das vezes por um tom de galhofa, inseriedade, quiçá anacronismo. Ouso dizer que este tom eminentemente presepeiro só se verifica acoplado ao lirismo de Kerouac em sua versão lusófona. Bueno gaba-se de ter eliminado a ''boléia'' e outros termos risíveis ao ouvido brasileiro das versões nacionais do autor americano, ela subsiste esparramando-se tacitamente por nossos quadrados tímpanos a cada vez em que a ''gostosa gata loira Marylou'' é citada nestes termos, que obviamente, não foram concebidos para o constrangimento que nos impõem. Não pretendo aqui condecorar o português com o estigma de língua desastrada ou inflexível, mas de fato sua robustez gramatical e vocabular é declaradamente antagônica aos compassos benzedrínicos dos romances de Duluoz. Uma tradução que se preze não pode submeter-se ao vexame de jogar segundo os termos saxões, atirando-se em meras transposições vocabulares. Não há nem poderá haver uma prosódia bop à boa maneira lusitana, é preciso que se entenda claramente isso caso se tenha em vista o objetivo de criar uma canal em nossos ouvidos para a expressão de Kerouac. Este é um problema sólido, que, à parte de todas as dificuldades óbvias e regulamentares presentes em qualquer tradução, raramente é observado numa transposição literária, pois não se trata de uma questão técnica, métrica, léxica, gramatical, sintática, mas de uma do espírito da língua, cuja exploração até a máxima tensão no inglês é um dos méritos do escritor, mas que pesa sobre nossa expressão de juristas e oradores de forma exagerada. Declaro portanto como requisitos fundamentais para uma boa versão brasileira da bibliografia ''beat'' os seguintes cuidados:
(1) - o respeito ao ritmo próprio do português, dominado o impulso de se criar uma versão ''exportação'' da Spontaneous Prose;
(2) - a adequação ao ouvido próprio do português, sem que as ''slangs'' inglesas só correspondam às suas versões traduzidas na leviandade juvenil. A qualidade estética da tradução é mais importante do que qualquer tentativa desastrada de contextualização socio-cultural com as agruras vocabulares da época do romance;
(3) - a imunidade aos modismos que possam comprometer a qualidade da obra.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

I think of New York as a great corridor. A walking line like the vast openness of the eighth avenue, a straight line to the beggining and a backing shadow of the long lasting end. I think of it as a collection of those oranged red bricks piled upon each other with old firestairs attached to them, building up buildings of different sizes, some of them damaged or just mellowed up on their run across the avenues to the south, to the great mellowness of the lower east side and chinatown. All these lines and bricks, corridors and avenues, open spaces and infinite, suffocating walls, where you can imagine the action of a dreary night, built upon the quietness of midnight chelsea, with the small symphatetic houses, the darkness of the streets or that lady standing in the front of her housedoor smoking, in the middle of the anguished dark of twentieth avenue. I think about asking the lady for a lighter, saying some useless stuff, synchronizing with that gloomy street feeling and finding some companion in the New York City where I don't know a person (but I do know I identify with many). But I can't fulfill my thought dreams this way. Almost everything I could strive for is long gone. In the end, it's just all these strange-looking negroes, hungry begging percussionists and the poor folks from the Bronx crowding the subway on their returning home from the dreary sides of the 42nd avenue. The Times Square wasn't built for them. Wasn't built for me either, but I can stand there in my good-looking clothes and imagine the past and the future. Being blinded by the lights, feeling like an ordinary tourist that can't believe in the scenery that is shown. This is where the City really stands. Flamboyant as it is, you can still see the beat, the bummy and the restless, hungry from heart, mind and stomach wandering in these neighbourhoods. These are the middle-aged black men standing in the sidwalk looking across the glass walls of the ESPN center to the basketball on the tvs, for they can never pay to get in. You can find the same men in my hometown; black middle-aged long-striving men, driving buses, going to heaven for sure. I eat $5 chinese food in the backstages of time square, trying to feel the 'hip' I came from across the sea looking for. I gather all the neon lights and dark alleys inside my mind and mix them into the real glimpse of the hipster life I am able to get in the troubled times that brought me into being. It is not usual for me to look upon the past, weeping for dead inspiration from some dead heroes. But I do learn from them. And I do catch the legacy which is written in the air, out of the focus of the neon lights hanging in Times Square (and out of the focus of a cheap chinese restaurant hanging upon the dark reachings of broadway.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Fragmento do 24 de maio.

(...) Entro no ônibus quase lotado. Ando lentamente afundo o corredor e visualizo os últimos lugares. Poderia escolher a última fileira, mas me sento no lado oposto ao banco atrás da porta, ao lado de uma gorda mulher negra. Todas as vãs almas terminam de preencher o corredor e bombardeiam para longe a tranqüilidade. Uma garotinha passa pela roleta, de cabelos encaracolados e marrons – não vulgar castanho, mas poucas têm esse cabelo marrom como barro, tingido de argila. A garotinha adolescente tem cara de criança – Não criança sublime, menininha branquinha e olhos profundos, mas criança, mesmo. Moleca em vias de menstruar. Penso na distância em oferecer meu lugar valioso num ônibus lotado e dela ganhar carinho e admiração, mas logo se senta no chão em minha frente. Avança pelo corredor outro moleque adolescente. Senta-se ali com a garotinha de cabelos cor de barro. Vejo um livro e me contorço para saber o que é. Carl Sagan, ateu maldito – enquanto todos prestarem atenção aos ateus mestres da irrealidade, estamos perdidos – penso tardiamente na Virgem Maria, em uma reação infantil. Leio Ginsberg, também ateu comunista – preciso perdoá-lo por tudo – mas não trata-se aqui de perdão, mas de endossar tudo o que se diz, ‘’esquecer minhas cuecas e estar livre’’, mergulhando livre na dialética maldita de mim. Uma meio-gorda meio-feia chega à parte traseira. Pondero cumprir alguma necessária penitência vinda de qualquer cantão de culpa e oferecê-la meu lugar. Não, todos achariam estranho. Despropositado, desnecessário. Ela senta-se onde deve, nos degraus de saída. Ouço a alta conversa que ecoa da extrema traseira, Recém-formados ou formandos de qualquer coisa, em trajes de trabalho, discutindo agruras estúpidas da vida burguesa juvenil. Falam muito alto, querem que todos ouçam. Trabalhos, notas, trabalho, casa, férias, casamento. Desejo-lhes a ida ao inferno. Os dois adolescentes no chão, o leitor de escritor ateu e a menina de cabelo da cor de tinta guache marrom conversam besteiras adolescentes. Funcionários da empresa de ônibus no corredor conversam sobre algo que não consigo compreender. Todas as conversas do ônibus misturam-se em uma áspera cacofonia.

Os homens de roupa de trabalho discutem pilhérias. Falam alto, querem que todos participem da conversa. Falam sobre filmes ruins, coisas ruins. Penso em me levantar ali, cumprir meu destino concreto e recitar em voz alta os últimos versos do Uivo. Idiotas! Acordem, ‘’A guerra eterna está aqui’’, mas continuam a ir impassíveis congestionar a feia Niterói central. Sinto pena verdadeira dos homens em roupas de trabalho. Penso em pequenezas literárias. Arquiteto modos de tornar meus personagens mais inteligentes do que eu, deslocando seus pensamentos no tempo. Unificando meus pensamentos da rodoviária ao mocanguê. Colocando tudo que deveria ter pensado em seu lugar no passado. Transformando-me numa mente preciosa de papel. Sinto distante a estupidez burguesa. Penso no sonho de dois dias atrás, em que era importunado por idiotas como na infância. Sinto-me constrangido, volto a ser um moleque bundão. Reitero como devo ser, ‘’Forte e armado, Bruno’’. Preciso malhar e comprar um canivete que seja. As pessoas esvaziam o ônibus e preenchem o feiíssimo centro de Niterói. O moleque ateu e a menina de cabelo enrolado sentam-se lado a lado. Que a Virgem os abençoe. Deparo-me tristemente com a chegada ao tórrido, insosso Ingá. Estou pingando, após uma longa viagem, em lágrimas, mas só em sonhos enxergo a bela Noite Ocidental. (...)