Os homens de roupa de trabalho discutem pilhérias. Falam alto, querem que todos participem da conversa. Falam sobre filmes ruins, coisas ruins. Penso em me levantar ali, cumprir meu destino concreto e recitar em voz alta os últimos versos do Uivo. Idiotas! Acordem, ‘’A guerra eterna está aqui’’, mas continuam a ir impassíveis congestionar a feia Niterói central. Sinto pena verdadeira dos homens em roupas de trabalho. Penso em pequenezas literárias. Arquiteto modos de tornar meus personagens mais inteligentes do que eu, deslocando seus pensamentos no tempo. Unificando meus pensamentos da rodoviária ao mocanguê. Colocando tudo que deveria ter pensado em seu lugar no passado. Transformando-me numa mente preciosa de papel. Sinto distante a estupidez burguesa. Penso no sonho de dois dias atrás, em que era importunado por idiotas como na infância. Sinto-me constrangido, volto a ser um moleque bundão. Reitero como devo ser, ‘’Forte e armado, Bruno’’. Preciso malhar e comprar um canivete que seja. As pessoas esvaziam o ônibus e preenchem o feiíssimo centro de Niterói. O moleque ateu e a menina de cabelo enrolado sentam-se lado a lado. Que a Virgem os abençoe. Deparo-me tristemente com a chegada ao tórrido, insosso Ingá. Estou pingando, após uma longa viagem, em lágrimas, mas só em sonhos enxergo a bela Noite Ocidental. (...)
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Fragmento do 24 de maio.
(...) Entro no ônibus quase lotado. Ando lentamente afundo o corredor e visualizo os últimos lugares. Poderia escolher a última fileira, mas me sento no lado oposto ao banco atrás da porta, ao lado de uma gorda mulher negra. Todas as vãs almas terminam de preencher o corredor e bombardeiam para longe a tranqüilidade. Uma garotinha passa pela roleta, de cabelos encaracolados e marrons – não vulgar castanho, mas poucas têm esse cabelo marrom como barro, tingido de argila. A garotinha adolescente tem cara de criança – Não criança sublime, menininha branquinha e olhos profundos, mas criança, mesmo. Moleca em vias de menstruar. Penso na distância em oferecer meu lugar valioso num ônibus lotado e dela ganhar carinho e admiração, mas logo se senta no chão em minha frente. Avança pelo corredor outro moleque adolescente. Senta-se ali com a garotinha de cabelos cor de barro. Vejo um livro e me contorço para saber o que é. Carl Sagan, ateu maldito – enquanto todos prestarem atenção aos ateus mestres da irrealidade, estamos perdidos – penso tardiamente na Virgem Maria, em uma reação infantil. Leio Ginsberg, também ateu comunista – preciso perdoá-lo por tudo – mas não trata-se aqui de perdão, mas de endossar tudo o que se diz, ‘’esquecer minhas cuecas e estar livre’’, mergulhando livre na dialética maldita de mim. Uma meio-gorda meio-feia chega à parte traseira. Pondero cumprir alguma necessária penitência vinda de qualquer cantão de culpa e oferecê-la meu lugar. Não, todos achariam estranho. Despropositado, desnecessário. Ela senta-se onde deve, nos degraus de saída. Ouço a alta conversa que ecoa da extrema traseira, Recém-formados ou formandos de qualquer coisa, em trajes de trabalho, discutindo agruras estúpidas da vida burguesa juvenil. Falam muito alto, querem que todos ouçam. Trabalhos, notas, trabalho, casa, férias, casamento. Desejo-lhes a ida ao inferno. Os dois adolescentes no chão, o leitor de escritor ateu e a menina de cabelo da cor de tinta guache marrom conversam besteiras adolescentes. Funcionários da empresa de ônibus no corredor conversam sobre algo que não consigo compreender. Todas as conversas do ônibus misturam-se em uma áspera cacofonia.
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