domingo, 23 de novembro de 2008

Mãe.

minha mãe era uma instituição, e nisso eu me criei. Éramos só nós. Minha mãe era um pesadelo de normalidade. Nela só cabia aquilo que era trivial, mas a trivialidade dela. Seu jeito de cozinhar, cuidar das unhas e do cabelo, conversar com os vizinhos e assistir novelas era tão normal quanto ela podia querer que fosse. uma normalidade que ela havia forjado para si. E aquilo sempre se encaixou bem no nosso mundo. Ou no meu mundo, se ela tiver criado um para mim. sempre foi uma constante inquestionável na minha vida que sua comida era melhor temperada, que os cabelos e roupas que ela criticava com certeza faziam parte de um modo esquerdo de vida e de gostos e que as vidas fora dela também era esquerdas e tortas. Minha mãe não fumava, a partir disso nunca consegui enxergar um adulto fumante como alguém coerente. Uma pessoa independente, que cuida de si mesma, mas que fuma, não pode ser íntegra. Havia ali uma corrupção, como há corrupção em tudo fora da normalidade da minha mãe. Não me passava pela cabeça que eu pudesse crescer e cometer os mesmos ''erros'' da adolescência. Nem que um adulto pudesse ter uma vida bagunçada ou praticar excentricidades. É claro que anos depois, tudo isso serviu para despertar um sabor novo em mim, o sabor de viver a corrupção, de ser um adulto moleque, mesmo que isso fosse só um bicho papão da minha infância.

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